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Trindade e Tobago: um destino hostil para refugiados venezuelanos

Por Madison González García

Na noite deste sábado, 12 de dezembro, 11 corpos sem vida foram encontrados “flutuando” no alto da Bocas de Dragón, a 6,3MN do porto de Güiria, no estado Sucre, entre a Venezuela e a ilha de Trinidade e Tobago. O número aumentou para 20 no domingo. Entre os que permanecem desaparecidos, há três crianças de 6, 8 e 2 anos, e um bebê de 11 meses.

Estas pessoas estavam a bordo do barco Mi Esperanza, tentando fugir da Venezuela para Trindade e Tobago, em razão da crise multifatorial que acontece no país vizinho, mas acabaram sendo devolvidos pelas autoridades e naufragaram no caminho de volta (EL NACIONAL, 2020).

A tragédia ocorre três semanas depois que um grupo de migrantes venezuelanos, composto por ao menos 16 crianças, foi deportado e expulso da Trindade e Tobago. A embarcação passou 48 horas no mar, em águas internacionais e depois retornou por decisão judicial. Na ocasião, autoridades da ilha caribenha reiteraram que as fronteiras foram fechadas devido à pandemia do Coronavírus e que qualquer imigrante irregular seria uma pessoa indesejável.

No entanto, esta situação não é recente. Esta passagem marítima já tem várias vidas no seu histórico, pois há relatos de que desde 2015, no início da crise migratória, ocorreram diversos naufrágios (18/01/2018; 23/04/2019).

Esta rota (Güiria-Bocas de Dragón-Trinidad) se tornou como um corredor ativo de contrabando de pessoas. Segundo os moradores da região, a saída por Güiria tornou-se a mais barata e mais rápida. Os migrantes pagam $ 300 dólares pela viagem (cerca de R$1550), quando chegam na praia Chaguaramas, na Trindade, devem tentar escapar da polícia (EL PAIS, 2020). O maior risco, além de naufrágio ou deportação, ainda existe a ameaça do trágico de pessoas e trata de brancas.

Para Isidro Villegas (EL PAIS, 2020) “Esta área sempre foi utilizada por contrabandistas de todos os tipos. Eles traficam drogas, combustíveis, materiais estratégicos como cobre, alumínio, minerais, urânio, e agora traficam pessoas também”.

Pese a que os venezuelanos são reconhecidos como refugiados, são vítimas de graves e generalizadas violações de Direitos Humanos no seu país de origem (ACNUR, 2018, 2019) o Governo de Trindade e Tobago criminaliza o deslocamento do grupo, impossibilitando que solicitem proteção internacional se ingressarem no território de forma irregular, aprendendo-lhes e deportando-os de forma sumária e sem as garantias mínimas.

Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), se estima que 24.000 venezuelanos moram no país (R4V,2020), estando pelo menos 50% destes, em situação irregular.

Durante muitos anos, trinitários e outros cidadãos da América do Sul emigraram para a Venezuela em busca de melhores condições de vida e trabalho, e em diversas ocasiões como estratégia de sobrevivência – no entanto, a recíproca não tem se repetindo para os refugiados venezuelanos, – Trinidade e Tobago tornou-se mais um destino hostil e punitivo para esse deslocamento forçado.

*Madison González García é  Mestranda em geografia pela Universidade Federal do Paraná. Membro da Rede de Venezuelanos no Brasil (REDEVEN).

REFERÊNCIAS:

ALTO COMISIONADO DE LAS NACIONES UNIDAS PARA LOS REFUGIADOS (ACNUR) Venezuela: Nota de orientación sobre consideraciones de protección internacional para los venezolanos. Marzo 2018. Disponível em: https://www.refworld.org.es/docid/5ce2d44c4.html.

ALTO COMISIONADO DE LAS NACIONES UNIDAS PARA LOS REFUGIADOS (ACNUR), Venezuela: Nota de orientación sobre consideraciones de protección internacional para los venezolanos. Actualización I, 21 Mayo 2019. Disponível em: https://www.refworld.org.es/docid/5ce2d44c4.html.

  1. Gobierno confirma que al menos 20 migrantes venezolanos murieron en naufragio rumbo a Trinidad y Tobago. 14/12/2020. Disponível em:https://www.dw.com/es/gobierno-confirma-que-al-menos-20-migrantes-venezolanos-murieron-en-naufragio-rumbo-a-trinidad-y-tobago/a-55940637

EL NACIONAL. Lo que dijo Trinidad y Tobago sobre naufragio que dejó 14 venezolanos muertos. 14/12/2020 Disponível em:https://www.elnacional.com/mundo/lo-que-dijo-trinidad-y-tobago-sobre-naufragio-que-dejo-14-venezolanos-muertos/

EL PAÍS. Los naufragios profundizan el drama de los balseros venezolanos: “La gente está escapando”. 13/12/2020. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2020-12-13/casi-20-muertos-en-un-naufragio-de-balseros-venezolanos.html

PLATAFORMA REGIONAL DE COORDINACIÓN INTERINSTITUCIONAL PARA REFUGIADOS Y MIGRANTES DE VENEZUELA (R4V), Disponível em:https://r4v.info/es/situations/platform. Acesso em: 23 de setembro de 2020.